À descoberta da Festa de S. João de Sobrado
Apontamentos de Manuel Pinto
A Festa de S. João de Sobrado é, provavelmente, uma das mais extraordinárias manifestações de cultura festiva popular de Portugal. Pela sua genuinidade e vigor e pela participação activa dos sobradenses, pode mesmo considerar-se um caso a nível europeu. Ser ainda pouco conhecida em Portugal e fora dele é, ao mesmo tempo, uma pena e uma vantagem. Pena porque muita gente ganharia em conhecer uma tradição como esta. Vantagem porque, a partir do momento em que se torne mais conhecida, as sanguessugas do dinheiro não hesitariam em procurar cercar e perverter a festa. O “low profile” que tem adoptado tem-lhe permitido afirmar-se, sem se fechar ao exterior. Veremos se resiste e se recria. Mas, então, que festa é esta?
O S. João de Sobrado realiza-se ininterruptamente há muitos anos, em na vila de Sobrado, no município de Valongo, a escassos 15 quilómetros da cidade do Porto. A festa atrai à localidade muitos milhares de pessoas das redondezas e mesmo de longe, merecendo especial menção os laços que a ela mantiveram e mantêm os muitos sobradenses emigrantes, primeiro os ‘brasileiros’ e ‘venezuelanos’ e, desde os anos 60, os ‘franceses’, ‘alemães’ e ‘luxemburgueses’.
Apesar de alguns sobradenses e, sobretudo, a grande maioria dos forasteiros ignorar o facto, a Bugiada constitui a recordação e actualização (re-presentação, no sentido de voltar a fazer presente) de um facto que tem tanto de histórico como de mítico. Foi quando os mouros, que haviam invadido a Península Ibérica, ocupavam a Serra de Cuca Macuca (hoje designada Santa Justa), sobranceira a Valongo e de onde se avista boa parte da freguesia de Sobrado. Nesse tempo, a filha do rei mouro (Reimoeiro) adoeceu gravemente e os médicos da corte não eram capazes de descobrir remédio para o mal de que padecia. Em desespero de causa, alguém se lembrou de sugerir o recurso aos cristãos, que se orgulhavam de possuir uma imagem milagrosa de S. João, que já havia feito maravilhas aquando de uma doença que afectara precisamente a filha do rei cristão. Este e os seus foram, assim, convidados para um jantar, a fim de se acordar o empréstimo da imagem. O receio de que o pretexto fosse, afinal, uma armadilha e pretexto para roubar o S. João terá levado os cristãos a não aceitar o pedido. Começou aí escalada que levou à guerra.
Bugios e Mourisqueiros
As danças entre a formação mourisca – jovens solteiros, em formação militar, acompanhados ao ritmo de tambor - e a bugia ou cristã - mascarada e irrequieta – arrancam de manhã cedo, em 24 de Junho, e prolongam-se até ao sol-pôr. Constituem indubitavelmente a parte mais vistosa e espectacular de quanto ocorre neste dia, na localidade.
E porquê? Em primeiro lugar pelo aparato dos trajes e dos movimentos de dança. Os bugios são simultaneamente mais numerosos – frequentemente mais de meio milhar - e mais estranhos e exóticos. Usam uns fatos multicolores que imitam o cetim, constituído por calça, casaco e uma capa, tudo debruado e garrido, com guizos dependurados pelo corpo. Na cabeça, levam chapéus encimados de penachos de fitas coloridas e, nas mãos, castanholas e uma diversidade de objectos que podem ir de bonecas a instrumentos agrícolas, passando por sardões, buzinas e outros recursos que a inventiva individual estimula. Importante: homens, mulheres, crianças (já que de bugio pode ir quem quer e pode) todos vão mascarados. Organizam-se sempre em duas filas paralelas, capitaneados pelo Velho, o qual tem uma indumentária diferente, que lhe dá um ar patriarcal. Quando a hora é de dança, os saltos são impressionantes e a algazarra indescritível.
Os Mourisqueiros são substancialmente diferentes: no número, nos trajes e na natureza. Raramente ultrapassam as três dezenas. Só rapazes podem ser mouriscos e desde que estejam ainda solteiros. Vestem fato listado de cores variadas mas sóbrias, com faixa vermelha cruzando o tronco. Na cabeça, uma barretina cilíndrica de uns 40 centímetros de altura, rodeada de espelhos e encimada por plumas. A cara vai descoberta. O Reimoeiro, de dragonas sobre os ombros e de cordões dourados cruzados no peito, destaca-se das duas filas. Todos levam espada. O ar de formação militar completa-se com o uso obrigatório de polainas que lhes protegem a parte inferior das pernas. Dançam quase sempre ao som de tambor, em coreografias fisicamente exigentes e prolongadas.
Congregam-se de manhã cedo na casa do respectivo chefe, após o que se dirigem ao local do banquete. Os mouros tomam, de seguida, parte na procissão com que termina, ao fim da manhã, a parte religiosa da festa. Carregam os andores de S. João e do padroeiro de Sobrado.
Segue-se um dos seus momentos altos do dia: as danças de entrada que são, ao fim e ao cabo, desfiles de apresentação que percorrem boa parte do arraial, no centro da vila. Ao longo da tarde executam ainda várias outras danças, designadamente aquela que é conhecida como a dança do doce, que tem lugar no pátio interior da residência do pároco, o qual é obrigado, por tradição, a oferecer aos intervenientes um doce e um copo de vinho.
Quando a tarde começa a declinar, quando as picardias entre as duas formações (que não se podem encontrar a não ser no clímax da festa) já criaram um ambiente de tensão, preparam-se então os combates. Estes têm simbolicamente lugar entre altos palanques montados no Passal, a uns 60 ou 70 metros um do outro. Esses combates são antecedidos de negociações, recorrendo primeiro a um mensageiro a cavalo e, depois, também com a intervenção dos advogados das partes. Como nada disto resulta, os tiros de ‘canhão’ (pólvora seca) ecoam nos ares, de um e outro castelo, até que as munições se acabam do lado dos bugios. Então, o exército mourisco perfila-se, marcha sobre a fortaleza adversária, arremete com força e, à terceira vez, consegue penetrar no reduto onde o Velho se encontra. O Reimoeiro prende-o e trá-lo bem agarrado, no meio de um círculo de espadas formado pelos Mourisqueiros. No coreto, a banda de música toca o hino da ‘paixão’. É a desolação do lado bugio. Aparentemente, as coisas correram mal para eles e a derrota parece incontornável. Mas eis que alguns bugios mais argutos descobrem o meio de reverter o fracasso em vitória: arranjam uma enorme Serpe esverdeada, de horrenda boca rubra, aguardam o momento mais azado e, irrompendo com ímpeto no caminho mourisco, abrem brechas no seu exército, arrebatam o Velho e podem, por fim, encerrar a festa com a dança da vitória, enquanto os Mourisqueiros, refeitos da surpresa, se reorganizam também e, junto à igreja matriz, executam a dança do santo.
Pelo meio das danças, muito que ver
Esta é, como se dizia atrás, a parte mais “vistosa e espectacular” da festa. Sem considerar as cerimónias propriamente religiosas do culto a S. João, que se verificam de manhã e que são as habituais neste tipo de festas, é possível destacar as seguintes : a) manifestações carnavalescas; b) cobrança dos direitos; c) sementeira e lavra ritual; e d), finalmente a dança do cego. Alguns aspectos têm em comum: todas elas são executadas por mascarados, que nada têm a ver com os bugios; a quase totalidade delas pondo em cena gente simples e pobre, como camponeses, artífices, mendigos, etc; finalmente, todas preenchem o período compreendido entre as danças de entrada, à hora do almoço, e os preparativos da luta final entre Bugios e Mourisqueiros. Vejamos, de forma breve, algumas características de cada uma daquelas manifestações:
a) as manifestações carnavalescas
No final do desfile das danças de entrada e percorrendo o mesmo trajecto, indivíduos ou grupos mascarados satirizam acontecimentos locais ou nacionais. A crítica pode ser mordaz e ter a ver com a inoperância dos autarcas, algum evento exótico ou burlesco e até mesmo a evocação de graves problemas da comunidade local. A encenação deita mão a todo o tipo de linguagens e suportes: objectos vários, cartazes, imagens pornográficas, excrementos.... Numa linha de acção muito característica desta festa, várias das encenações e sketches implicam contacto com os circunstantes: máquinas de filmar que esguicham água choca, objectos enlameados lançados sobre as pessoas, aspersão com serrim ou areia, etc.
b) a cobrança dos direitos
Ao princípio da tarde, montado ao contrário num burro e ‘molhando’ a ‘caneta’ no ânus deste, vem um cobrador por cada tenda instalada no arraial. Todos são ‘convidados’ a dar qualquer coisa, normalmente em géneros. Certamente que os sítios das bebidas e das comidas são os mais sacrificados.
c) a sementeira e lavra ritual
Num trajecto que é rigorosamente o mesmo e que, no essencial, dá a volta ao Passal, procede-se ao amanho da terra, mas realizando as operações em sentido inverso àquele que é o habitual. Um camponês mascarado e sentado ao contrário num burro ou numa mula começa por semear. Depois de completar a sua volta, segue-se-lhe outro mascarado que conduz a grade, puxada pelo mesmo animal (às vezes por dois). Finalmente, tem lugar a saída do arado, para lavrar a praça. Cada surtida é acompanhada com enorme algazarra por um certo número de Bugios que têm mais um papel de abrir caminho entre a multidão do que de intervenientes directos. Escusado será dizer que é de tradição que os toscos instrumentos agrícolas confeccionados para a ocasião ou não cheguem ao fim ou cheguem completamente desfeitos.
d) a dança do cego
Também chamada “sapateirada”, esta parte tem muito que se lhe diga e é seguramente um dos momentos altos da festa, especialmente a quarta e última representação, que ocorre sempre junto ao adro da igreja. Há um sapateiro que trabalha no seu ofício, ajudado por um moço. A esposa fia, junto a ele. De súbito, vem um cego de enxerga às costas, guiado por um moço, através de uma vara. Mas este condu-lo de tal modo que ele vai derrubar o sapateiro e estatelar-se de barriga para baixo no meio de um charco de lama. Ladino, o moço do cego aproveita a confusão e foge com a mulher do sapateiro, que já havia dado suficientes sinais de não estar excessivamente satisfeita com a vida que o marido lhe dava. O artífice não se apercebe de imediato do que se passa e despeja a sua ira varejando desalmadamente o cego. Logo que este deixa de dar acordo de si, põe-se à procura da mulher, desesperado. E logo que a descobre, é desafiado para o jogo do pau pelo raptor, vencendo-o sem grande dificuldade. E a situação volta ao ponto inicial. Esta é, digamos assim, a história sem condimentos. Os temperos são dados por um sem número de pormenores que tornam a ‘dança do cego’ dificilmente descritível. Os gestos e comentários brejeiros do sapateiro e da mulher; os excrementos que fazem a vez de cera e os sapatos cheios de lama que o artesão vai lançando sobre o povo, os salpicos de água e lama que dificilmente deixam algum dos presentes imune à aspersão – tudo isto torna esta ‘dança’ do cego numa experiência telúrica e orgiástica de fusão com os elementos naturais, com o lado nocturno da existência, num misto estranho que combina o lúdico, o humorístico e o lúbrico.
Servem estas notas apenas para sublinhar que vale a pena passar em Sobrado o dia 24. Quem gostar de apreciar o que hoje em dia é raro, dará o tempo por bem passado. Esta é uma festa que não tem texto, nem falado nem escrito; tudo se diz e expressa pela dança, pela música e pelos gestos. Representa um acontecimento histórico vivido por uma comunidade, mas incorpora, nos seus interstícios, uma capacidade notável de encenar e questionar a vida de todos o dias. Por outro lado, os ‘maus’, nesta festa, nunca se sabe bem quem são, evidenciando a ambivalência e as contradições da vida dos indivíduos e da colectividades. Finalmente, a festa não é um típico espectáculo, feito para terceiros. Dir-se-ia que quem participa o faz por uma espécie de devoção, de culto, de paixão, que implica entrega e participação, que reveste um carácter social muito forte. É um pouco tudo isto que faz da festa de Sobrado um caso a descobrir. Porque fala de uma comunidade e fala, talvez sobetudo, dos sonhos e dramas de cada um de nós.
Manuel Pinto
JNValongo
Jornal Novo de Valongo, onde fica a saber o que se passa nas cinco freguesias do concelho.
Website: www.jnvalongo.com




